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Farmar Aura ou Farmar Personagem? O maior erro da nova geração no mundo corporativo.

Durante as últimas semanas, uma expressão tomou conta das redes sociais: “farmar aura“. Vídeos acumulam milhões de visualizações mostrando pessoas tentando parecer mais confiantes, mais respeitadas, mais admiradas. A lógica vem dos games: farmar significa acumular pontos. Aura seria aquela presença quase magnética que faz alguém chamar atenção sem precisar dizer muita coisa.

Confesso que achei curioso. Porque, enquanto milhares de jovens procuram descobrir como “farmar aura”, dentro das empresas acontece exatamente o contrário. Quem realmente cresce na carreira raramente está preocupado em parecer importante. Está ocupado em gerar valor. E existe uma ironia interessante nisso: quanto menos alguém tenta construir uma imagem de influência, maiores costumam ser as chances de se tornar, de fato, influente.

O problema não é a aura. É acreditar que ela pode ser construída de fora para dentro. Vivemos uma época em que praticamente tudo pode ser editado. Filtros editam rostos. Inteligência Artificial edita textos. Vídeos editam personalidades. O LinkedIn, muitas vezes, edita carreiras. Até a humildade, em alguns casos, parece cuidadosamente produzida para gerar engajamento. Nunca foi tão fácil parecer. Mas o ambiente corporativo continua premiando quem consegue sustentar aquilo que aparenta.

É justamente nesse ponto que entra um conceito que venho estudando há anos e que deu origem ao meu livro Inteligência Cênica.

Quando afirmo que toda empresa é um palco, algumas pessoas imaginam que estou defendendo que devemos interpretar personagens. É exatamente o contrário. No teatro, um ator pode decorar um roteiro e convencer durante duas horas. Na empresa, o espetáculo dura anos. Não existe personagem que sobreviva tanto tempo. Mais cedo ou mais tarde, a rotina revela quem realmente somos.

A Inteligência Cênica não ensina alguém a representar. Ela ensina alguém a compreender o cenário antes de agir, perceber quem está na plateia, entender o contexto e identificar quais comportamentos fortalecem relações e quais destroem reputações. Em outras palavras, não é sobre atuar. É sobre fazer a leitura do ambiente.

Essa talvez seja a maior diferença entre quem apenas chama atenção e quem realmente exerce influência.

Quando converso com executivos e pergunto por que determinado profissional foi promovido, raramente escuto respostas como: “ele falava muito bem”, “era extremamente carismático” ou “postava bastante no LinkedIn”. Na maioria das vezes, as respostas são muito menos glamourosas: “ele resolvia problemas”, “transmitia segurança”, “nunca precisava ser cobrado”, “sabia lidar com conflitos” ou “conectava pessoas”.

Perceba que esses comportamentos dificilmente viralizam nas redes sociais. Entretanto, são exatamente eles que constroem reputações dentro das organizações. A verdadeira aura é silenciosa.

Existe uma diferença enorme entre visibilidade e influência. Visibilidade faz as pessoas olharem para você. Influência faz as pessoas acreditarem em você. A primeira pode ser conquistada rapidamente. A segunda exige repetição, coerência e tempo. É por isso que alguns colaboradores entram em uma empresa e, poucos meses depois, tornam-se referência, enquanto outros passam anos tentando convencer colegas e gestores de que merecem reconhecimento. O primeiro construiu confiança. O segundo tentou construir imagem.

O algoritmo da empresa também funciona de forma muito diferente do algoritmo das redes sociais. Nas plataformas digitais, aquilo que chama atenção costuma ganhar alcance. Dentro das organizações, o que gera confiança costuma ganhar espaço. O algoritmo corporativo mede outras variáveis: quem mantém a calma quando todos entram em pânico; quem entrega quando ninguém está olhando; quem compartilha os méritos; quem assume responsabilidade pelos erros; quem consegue adaptar seu comportamento sem perder sua essência. Curiosamente, essas características dificilmente aparecem em uma selfie. Mas aparecem em praticamente todas as promoções.

Ao longo da minha trajetória como executivo, consultor e professor, acompanhei centenas de profissionais extremamente competentes que nunca conseguiram exercer influência. Também conheci pessoas tecnicamente apenas medianas que se tornaram grandes líderes. A diferença quase nunca estava no currículo. Estava na capacidade de compreender o contexto, ler o ambiente, entender o momento certo de falar, o momento certo de ouvir, o momento certo de discordar e, principalmente, o momento certo de liderar.

Isso é Inteligência Cênica. Não é aprender a representar um personagem. É desenvolver sensibilidade para compreender o palco onde você está e agir de maneira consciente, ética e estratégica.

Talvez, no fim das contas, a pergunta esteja errada. Em vez de perguntar “Como eu posso farmar aura?”, talvez devêssemos perguntar: “Quais comportamentos fazem as pessoas confiarem em mim quando eu nem estou na sala?”

Porque esse é o verdadeiro teste da influência.

Sua reputação não é construída pelo que acontece quando você entra em uma reunião. Ela é construída pelo que as pessoas dizem depois que você sai.

E essa, definitivamente, é uma aura que nenhum filtro consegue criar.

Por Ronaldo Loyola, palestrante, especialista em gestão de pessoas, professor e fundador da LHRC Consultoria

Autor do Livro: Inteligência Cênica – A nova softskill do mundo corporativo.

Instagram: @ronaldo.loyola

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